Onde há muito mais de nós mesmos...

Por Regiane Litzkow



Cheiro de flor





De todas as coisas que cortam meu coração, o perfume da minha mãe é o que mais me dilacera.

Admiti isso ontem, após despedir-me dela com um abraço, enquanto atravessava a cidade ao anoitecer, percebi que seu cheiro havia ficado nos punhos da minha camisa.

Certos laços nos amarram, de tal modo, que constituem nós. Desses, não nos desprendemos jamais.

Logo que se separou do meu pai, em suas visitas sazonais, minha mãe sempre nos trazia uma sacola contendo bolachas, balas e doces.

Era certo que deixaria impregnar as alças da sacola com aquele seu odor floral que, por vezes, se espalhava até pelas embalagens que carregava ali.
Logo que partia, meu pai sempre resmungava algo, reprovando aquele excesso de fragrância. Nós ríamos de sua rabugice com as bocas todas lambuzadas das guloseimas, enquanto eu aproveitava a distração de todos para afanar a perfumada sacola. Dobrava e a escondia cuidadosamente entre a blusa e o peito.
Reduzia meus movimentos para que ninguém percebesse. Se meus irmãos vissem, certamente zombariam. Papai poderia se chatear. E o que pensariam meus amigos se descobrissem que eu tinha apego a uma sacola? Necessitava muita cautela, até conseguir ficar só e guardá-la em um local mais seguro. Lugar que se tornava uma espécie de santuário. Era quase um ato devocional eu retornar ali todos os dias. Evitava chegar muito perto. Acreditava que se abusasse do contato, o aroma mágico se gastaria. Fazia economia apenas contemplando. E quando não conseguia me conter, aproximava-me e inspirava com toda a força dos meus pulmões infantis, na vã tentativa de saciar-me por completo. Era sempre assim, até que se desse outra visita e eu conseguisse substituir a sacola por outra recarregada daquele cheiro doce.
Numa manhã de verão inesquecível, surpreendentemente, mamãe nos esperava na portaria da escola. Como sempre, linda e despreocupada, roubando os olhares ao redor. Acompanhou-nos de mãos dadas até em casa, almoçou conosco, distribuiu presentes, guloseimas e, ao fim do dia, revelou que estava de mudança para longe.

Era a despedida. A última sacola...
Durante os anos seguintes, mantive o ritual. A princípio, meu olfato logo reconhecia os vestígios dela ali. Com o tempo, só restou o cheiro de plástico.
A constatação disso me custou muito mais lágrimas do que a própria despedida tempos antes. Eu me acostumara a viver sem a minha mãe, não sem o perfume dela. Aquilo já era abandono demais! Não sabia se me faltava o ar por conta do choro convulsivo ou pela ausência do meu cheiro favorito.

Chorei outras vezes depois, mas a falta costuma roubar o espaço que algo deixou na vida da gente e, aos poucos, ela se acomoda e passa a fazer menos barulho.
E foi no silêncio que mantive, por anos, minha sacola de estimação. Já não passava de uma sacola furada comum, mas eu ainda via sentido em guardá-la. Descartável é um termo muito pessoal, por assim dizer, varia da necessidade de cada um.
Uma sacola acalentou-me diversas vezes. Depois, eu cresci, reencontrei várias vezes o abraço da minha mãe adocicado por aquele perfume e entendi que sou incapaz de eternizá-lo como queria.
Essa idéia foi se tornando mais forte, consolidando-se junto à noite. Enquanto eu caminhava, revezando entre os dois pulsos que levava ao nariz, afetados por aquele cheiro único. Cabeça erguida, coração cheio, ignorei os demais transeuntes... Perdi o medo de ser ridícula. Decidi prolongar ao máximo esses momentos doces que exalam cheiro de flor.

Punhos, sacolas, fragrâncias... Tudo expira.

Mas muito mais adentro do que entre a blusa e o peito, é no coração onde carregamos o verdadeiro bem durável, o melhor de todos os perfumes; o amor.

6 comentários:

Anônimo disse...

Bela história. Parabéns! Posso sentir o doce perfume.
Gláuber Soares

Ana C. disse...

sempre me arranca lágrimas...
espero que escrever te faça sentir bem.. melhor..
gosto tanto de vc...
sempre falo isso, mas lembro do sue primeiro blogzinho
<3

Neusa Peppe disse...

Que linda mensagem Re...
vc escreve com a alma... é uma
pessoa muito abencoada, passa tanta ternura e paz..
Beijos Linda!!!
fica sempre com Deus.

Dennys Távora disse...

Regi, este texto é de uma sensibilidade tocante, além de estar muito bem construído e escrito. Você tem uma habilidade enorme para expressar os sentimentos e envolver o leitor. Esta é a característica mais marcante dos seus textos. É notável também a sua evolução estilística ao longo do tempo. É sempre um prazer ler o que você escreve. Quanto ao hábito de guardar escondido as sacolas impregnadas com o perfume da sua mãe, pode ser ingênuo, mas é também belo, pois repleto de um amor puro e sincero.Fez-me lembrar Marcel Proust ao descrever as emoções sentidas ao comer uma "madeleine" (uma espécie de bolo)molhada no chá e ver a sua consciência involuntariamente mergulhar nas lembranças da sua infância. É uma célebre passagem de "No caminho de Swann", o primeiro título dos sete que compoem a obra "Em busca do tempo perdido". Os odores, sabores e sons têm o poder de fazer emergir mémorias aparentemente perdidas. No seu caso, a intenção era de conservar até mais do que memórias. Ser tocado por certos sentimentos e sensações é privilégio de pessoas muito especiais e sensíveis, como você, mas para descrevê-los com alma, paixão e, consequentemente, beleza, é preciso muito talento. Este, felizmente, você tem de sobra. Parabéns pelo belo texto e obrigado pelo prazer desta leitura. Beijo carinhoso.

Eliza disse...

Lindo de machucar o coração! Impossível não chorar...
Beijos Regi

Poeta da Colina disse...

Quem são os outros para questionar nossos portos seguros. Que seja uma sacola, que seja um papel em branco, o importante é ter um lar.

Bela história.