Onde há muito mais de nós mesmos...

Por Regiane Litzkow



Nas Curvas do Amor




Hoje, enquanto trocava um manequim lá na loja, observei que entre as vitrines da galeria caminhava, graciosamente, uma menina com idade entre cinco ou seis anos. Ela, que desde então habitou todo o meu pensamento durante o dia.

Conheci seus pais logo que me mudei aqui para a cidade, há uns dez anos atrás.
Somos mais ou menos da mesma faixa etária e na época tínhamos amigos e interesses em comuns, o que nos permitiu vivermos algumas situações juntos.

Ele, sempre vivaz, risonho, incansável. Rapaz oriundo lá das bandas do Nordeste, destes que se enchem de disposição para mudarem seus destinos diante das oportunidades aqui das montanhas.

Ela, moça simples, filha da terra, nascida e criada na zona rural. Prendada quanto aos afazeres domésticos. Olhar despreocupado e sonhador. Leve, muito leve...

Juntos, eram o típico casal feliz. Tinham prazer em ocupar-se um do outro. Viviam de segredinhos, abracinhos, risinhos e outras peculiaridades próprias dos apaixonados.
Em nossas reuniões sociais, sempre esqueciam-se do todo e distraíam-se entre si. Bastavam-se um ao outro.
Nas raras vezes em que os vi separados, ainda representavam o par; não esqueciam-se por um segundo. Não distinguiam-se mais. Numa destas vezes em que estive só com ela, empenhou-se a tarde toda em me contar – com uma riqueza de detalhes – como se conheceram, o primeiro beijo, as primeiras flores... Nos olhos, o brilho ufano de quem sabe que carrega consigo a proeza que embala a vida.

Soube por terceiros, que todos os meses, num dia específico, ele elaborava uma situação romântica para ela. Cuidava minuciosamente de tudo. Era criativo e dedicado em seus feitos.

Em outra ocasião, onde estávamos num mesmo sítio, tirei umas fotos dos dois a pedido deles. Não precisaram se esforçar para que aquilo fosse o registro de um amor intenso. Tanto me impressionou a sutileza, que quis as cópias. - Nunca as tive.

Iam assim, na mesma direção. Ávidos, mas sem parecer querer chegar nunca. Ir, tão somente, era o que os motivava. Ali estava contido todo deleite que exalavam.

Namorados continuaram a ser, mesmo depois do noivado. A cerimônia de casamento, embora simples, contagiou até quem passava pela rua.

Mudaram-se para uma casinha pequena. Com esforço a mobiliaram modestamente. Orgulhavam-se demasiadamente disso.

Não demorou muito a notícia de que um bebê estava à caminho. E ela veio...

Não sei se neste processo perdi algum capítulo, mas o fato é que, logo que recém-nascida, soubemos com muito espanto que o pai havia saído de casa e se aventurado em outro relacionamento. A mãe entregou-se ao sofrimento, enclausurou-se, não reagindo mais. Isto a obrigou entregar o bebê à avó, com a qual a menina vive até hoje.

Ouvi rumores de que poucos meses depois o rapaz arrependeu-se, procurou desesperadamente a reconciliação. Tentaram. Mas ela já não o queria mais, disseram.

Abandonaram-se de vez. E muito mais que um ao outro; abandonaram a si próprios.
Ainda os vejo, entre um estação e outra. Dois (in)completos estranhos:
Ela, introspectiva; andar pesaroso. Sem qualquer adorno. Seus cabelos não possuem o mesmo balanço de outrora. Nenhum indício de leveza. Nenhum...
Ele, sisudo, compenetrado. Não gargalha mais, não alça vôos. Cético. Namora há algum tempo com uma loura escultural, destas tipo capa de revista. Entretanto, está longe de exibi-la com a mesma vaidade que fizera em outros tempos com a moça da roça.

Mudaram de endereço, de amigos, de projetos. Mudaram.
Como um carro que vem veloz, faceiro e num momento de descuido derrapa numa curva, colide, capota várias vezes até incendiar-se por completo. E dele só resta o chassi.
Nos moldes do que já não mais existe, está lá o chassi: A pequenina entre as vitrines.
O balé de seus passos e a junção de sua vivacidade - entre tantas outras somas - denunciam sua origem.
Lá está ela, a miniatura do milagre da vida em movimento. A evidência escancarada daquele amor. O álibi desta pobre narradora sobre a veracidade deste romance.

Tão inocente, tão linda, tão eles!
Quis abraçá-la e não pude.

5 comentários:

Anônimo disse...

Chorei!...

C. disse...

Gratidão pelo compartilhar das preciosas palavras durante o ano.
Feliz dias, feliz todos os dias ;)
Beijos e Flores

LINDA FLOR

Anônimo disse...

Tão bela quanto as rosas, preciosa como um lírio dos vales,
Seu nome é forte como a flor que resiste ao deserto
Seu sorriso em minha memória, Estará sempre guardado.
Tão bela, tão bela, preciosa, transformou a minha história.
Com você os meus dias serão primavera, a flor mais bela que Deus plantou em meu jardim...

♥ Luciana Mira ♥ disse...

QUE lindo seu blog, vc escreve tão bem! Deveria escrever sempre, hein?!

bjinhos

Dennys Távora disse...

A história desse jovem casal, tão magistralmente narrada, não é apenas comovente ou triste. É muito mais do que isso! Pode-se dizer que ela carrega consigo uma verdadeira lição de vida!
Acredito que esses dois jovens, durante muito tempo tão apaixonados, nasceram um para o outro. O amor deles era espontâneo, sublime e verdadeiro. Continha todos os elementos para dar certo. Um era parte do outro. Contudo, veio o rompimento.
Certamente, há uma lacuna desconhecida nessa história. O que levaria o rapaz a abandonar a sua esposa, a sua filha e o seu lar após uma união nascida de uma forma aparentemente tão perfeita?
Talvez a rotina do casamento e eventuais desgastes advindos da vida sob um mesmo teto tenham deteriorado o relacionamento. É possível, também, que modificações de prioridades decorrentes da gravidez e da chegada da filha, que não haviam sido previamente consideradas pelo casal, tenham contribuído para a surpreendente separação e busca, por parte do pai, do reencontro ilusório da paixão aparentemente perdida no lar. Muitos podem ser os motivos. Não importa!
Acredito que esses dois jovens nasceram mesmo um para o outro. A sincera paixão e o verdadeiro amor deles, entretanto, parecem ter contribuído para o descuido e a falta de reflexão acerca das dificuldades de uma vida em comum. Pode ser que tenham pensado tanto nos prazeres e alegrias que o casamento lhes propiciaria viver, e são verdadeiramente muitos, que não se prepararam para as dificuldades mais elementares que enfrentariam.
Já vi histórias parecidas terem finais igualmente tristes, o que demonstra, a meu ver, que nada está ainda pronto e acabado quando duas pessoas nascidas uma para a outra têm a sorte de se encontrarem e viverem um amor verdadeiro. Este encontro maravilhoso é apenas o começo de uma longa construção, que deve durar a vida toda. O amor é o alicerce, o fundamento e a base, mas nada além. Tudo restará a ser construído com dedicação, empenho e atenção, durante a vida inteira.
Voltando a história narrada e comentada, vêem-se, hoje, duas pessoas incompletas, insatisfeitas e amarguradas, cada uma no seu canto a tentar levar a vida como der. Perdendo-se um do outro, desencontraram-se de si mesmos e não reencontraram mais a alegria de viver. Uma linda é inocente criança é a prova viva que resta desse amor. Melhor seria se fosse uma testemunha privilegiada e uma das principais beneficiárias...
Beijo carinhoso.