Onde há muito mais de nós mesmos...

Por Regiane Litzkow



Tudo o que se vai




É estranho assistir certas coisas como espectadores, quando somos parte interessada da história.
O abandono nunca vem com a mesma sutileza que utilizam as conquistas. Por mais que chegue em doses homeopáticas, o abandono sempre é rude. Há quem diga que perdas radicais, dessas inesperadas, são muito mais dolorosas. Quanto mais eu vivo, menos me convence essa teoria.

Até à adolescência, costumava ficar horas recapitulando o dia em que a minha mãe saiu de casa. Não houve desespero, lágrimas bater de portas ou pedidos de perdão... Ela simplesmente saiu, sem despedida, sem bagagem, virou-se e foi. Eu, como única testemunha daquela cena, fiquei ali estática, olhando até que ela desaparecesse na primeira curva. Sabia, intuitivamente, que ela não voltaria. Apesar disso, permaneci ainda um bom tempo parada do lado de fora, olhando atentamente para a esquina vazia. A inércia tomou o lugar das lágrimas que não me vieram. Fui tantas vezes interpelada por adultos que queriam entender o que houve, escutava deles sempre a mesma indagação de que eu devia estar esquecendo de algum detalhe. Era inútil responder que não, eu era muito criança para obter tanto crédito. Eram tão insistentes que essa pergunta me acompanhou durante anos e passou a ser mais minha do que de qualquer um deles.

Demorou tempos para que eu descobrisse que minha mãe já estava indo embora bem antes daquele dia. Todos os dias ela ia um pouco, e mais um pouco, até ir de vez.

Anos antes daquele vinte e cinco de agosto, numa tarde de domingo, ela passava mal e se queixava das louças na pia que haveria de lavar. Eu saí quieta do quarto, peguei com muito esforço uma cadeira, me equilibrei em cima dela e resolvi que, pela primeira vez, lavaria louça para minha mãe e ela ficaria muito feliz comigo. Tive a "brilhante" idéia de que em vez de detergente comum eu usaria um sabonete perfumado que ficava no lavabo. Com a espuma que restou na pia, eu modelei um coração enorme. Após o grande feito, fiquei ansiosa, esperando que minha mãe se levantasse e percebesse a surpresa. Retoquei várias vezes o coração, mas ela demorou tanto que a espuma secou e ele ficou pequeno e deformado. Até que ela surgiu e, antes que eu dissesse qualquer coisa em minha defesa, brigou muito comigo por causa do sabonete. Irritada, empregou-se em lavar tudo novamente. Ao primeiro jato d'água extinguiu-se todo resto da espuma e um fio de esperança desceu junto cano abaixo. Esse é o primeiro registro que tenho de que minha mãe já não estava mais lá comigo. Só estamos verdadeiramente em um lugar, se nosso coração e alma também estão ali. Daí por diante, fui identificando vários outros vestígios da partida dela.

Curioso é a constatação de que essas passagens nunca me produziram revolta ou raiva. Ao contrário disso, eu a abraçava e pedia desculpas aos prantos. Preferia assumir uma culpa que sequer tinha, como se essa atitude pudesse reverter aquele quadro de abandono contínuo.

Ainda hoje faço isso, não aprendi lidar com perdas e acho que nunca vou aprender. Me comporto feito a mesma criança quando percebo que algo está me escapando. Sofro às prestações e fico esperando a despedida final que pode bater à minha porta a qualquer instante e sair por ela sem olhar para trás.

Acho ser por isso que quando chega a hora temida já não existem mais lágrimas. Mas não se enganem, é aí que inside toda a coletânea da tristeza. A certeza de que o momento viria e não ter sido capaz de evitá-lo, sempre diminui algo em nós.

Resta-nos deixar que se vão, recolher os cacos e conservar num canto especial da memória o que foi lindo.

Pra ser sincera, não me recordo de muitos momentos lindos com minha mãe, mas se pudesse voltar no tempo, lavaria toda a louça de novo, desta vez com detergente. Faria também um coração de espuma ainda maior e se ela não o visse, faria com que ela enxergasse o meu próprio coração.

5 comentários:

Ana C. disse...

me fez chorar... sabia que voltaria com tudo nas palavras
seu dom
fique bem , sempre.
luz!
flor rara

simplesmente sam disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dennys Távora disse...

Regi querida, li este texto ontem. Ele é envolvente, forte e denso. Tocou-me profundamente, a ponto de eu precisar tentar esquecê-lo por alguns instantes para conseguir me concentrar no trabalho. O que você escreve tem alma. Não é apenas uma embalagem bem elaborada e construída, mas desprovida de conteúdo interessante no seu interior. Como você sabe, os seus textos sempre me agradaram pela força e emoção que transmitem. Este foi o melhor que já li. Quanto às perdas, o mais difícil é lidar com o vazio por vezes abissal que deixam. De fato, “só estamos realmente num lugar se nosso coração e alma também estão ali”. Por outro lado, pode-se estar distante de alguém e ao mesmo tempo bem próximo, tamanha é a ligação entre os pensamentos, almas e corações. O que posso lhe dizer é que desejo estar sempre próximo de você, independentemente das circunstâncias ditadas pela vida e até da distância que aparentemente nos separe, pois o meu pensamento, alma e coração lhe acompanharão pelos caminhos que você trilhar, não importa quais sejam. Conte sempre comigo! Beijo carinhoso.

Belle disse...

"Resta-nos deixar que se vão, recolher os cacos e conservar num canto especial da memória o que foi lindo." E num momento de perda, de tristeza, de angústia eis que leio seu texto e tudo muda! Guardarei para sempre... Beijos Regi e obrigada por nos agraciar com suas belas palavras!

Rosana Ap. Rodrigues disse...

Acredito que a família terrestre não representa a família da alma. Aqui nascemos de laços...mas durante o decorrer da vida encontramos, muitas vezes, os verdadeiros laços da alma, a verdadeira família do coração. Quero com isso dizer que tudo tem um propósito divino, por menos que entendemos, e muitas vezes, é melhor não tentar entender mesmo.
Sem dúvida sua alma é pura e especial e muito tem a viver em alegrias.
Seu aprendizado de desapego, só sua alma entenderá, mas a sabedoria que já adquiriu...esta carregará para a eternidade minha querida.
Você tem aqui uma amiga e admiradora.
Sempre Toda Paz, com carinho, Rosana Rodrigues.